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Entrevista ao Jornal Informe Serafina Corrêa e Guaporé

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O quadro “Filhos de Serafina”, do Jornal Informe Regional, para Serafina Corrêa e Guaporé busca divulgar personalidades, profissionais, enfim, pessoas que nasceram nestes municípios, ou que são filhos do coração, contribuindo com o desenvolvimento dessas cidades.

Primeiramente conte sua origem, família, e informe seu nome completo. 

Liana da Cunha Mahfuz é meu nome de nascimento. Por parte de mãe tenho origem portuguesa e francesa e por parte de pai origem sírio-libanesa. Mas por ter nascido numa cidade de imigrantes italianos posso dizer que tenho um pouco desse italianismo hospitaleiro.

Meu pai iniciou sua carreira de médico em Serafina Corrêa. Casou com minha mãe e se mudaram para lá. Alugaram um sobrado na Linha 11. Era uma casa grande, na beira da estrada, com pomar, galinheiro e poço d’água. Nasci no hospital da cidade.

Conte-nos sobre sua vida quando morava em Serafina Corrêa e por quais motivos saiu daqui. 

Ouvi muitas histórias, contadas por minha mãe, sobre a cidade e a nossa casa.  O sobrado em que morávamos tinha um generoso quintal. As fotos tiradas por meus pais, junto com as histórias contadas por eles, fizeram com que eu criasse as imagens que me acompanham até hoje.

Minha mãe, Lia da Cunha Mahfuz e meu pai, Antonio Mahfuz, médico da cidade por três anos.

A casa tinha diversos espaços internos proporcionando-nos conforto e aconchego. A sala que mais recordo é a do piano pois minha mãe passava muito tempo tocando nele. Como esta sala dava para a rua, contam que as pessoas que por ali passavam se encostavam na parede da frente, para ouvir a música que emanava lá de dentro. Talvez fosse também pelo inusitado do acontecimento pois naquela época, numa cidade do interior, era difícil ter muitos pianos como aquele, presente que meu pai proporcionou à minha mãe trazendo o instrumento, que era de minha avó, para lá.

Lembro muito também da cozinha com seu fogão à lenha e o canto da minha babá. Enquanto cozinhava cantava feliz as canções que aprendia no rádio e eu ficava admirada com sua voz suave e melodiosa.

Para um médico recém formado, uma cidade do interior era um belo começo de vida e de profissão, pois ela proporcionava um exercício de todas as especialidades médicas, já que ele, na ocasião era o único profissional da saúde à disposição da comunidade.

Minha mãe tinha uma vida pacata de dona de casa, cuidava do jardim, bordava e organizava o ambiente de vida, à exemplo das mulheres daquele tempo.

Quais suas lembranças mais marcantes?

Vivi em Serafina Corrêa até os dois anos de idade e depois nos mudamos para Guaporé. Minhas lembranças são uma mescla de sensações muito agradáveis. 

Um acontecimento muito importante foi meu primeiro aniversário. Meu avô, por parte de pai, que era alfaiate, costurou e bordou o vestido da festa. Ele morava no Rio de Janeiro e enviou o vestido com uma cartinha endereçada à mim. Uma delicadeza que guardo no coração. A foto em que estou sentada numa cadeira tendo ao fundo a nossa casa, é uma imagem que me faz muito bem.

Outra lembrança marcante foi a chegada do carro que meu pai havia comprado. Um Ford Prefect. Certamente possibilitou nossos deslocamentos, para Porto Alegre, com Mais liberdade.

A chegada da Frigidaire GM também foi uma festa, pois transformou a rotina diária da família.

Já em Guaporé, tenho fotos andando de triciclo com tal alegria que fico com a certeza de que era um passatempo muito apreciado por mim.

Em Guaporé

Onde vive atualmente e quais suas ocupações

Depois desses três anos, entre Serafina Corrêa e Guaporé, meus pais se mudaram para Porto Alegre. Vivi em vários bairros da cidade. Isso me proporcionou um bom conhecimento urbano. Mas o bairro que mais lembro é o Rio Branco. Frequentei o Colégio Americano até o dia em que entrei para a Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Neste colégio tomei contato com todas as expressões artísticas e a partir daí nunca mais me distanciei das artes visuais, da música, da literatura e das artes cênicas.

Desenvolvi meu trabalho individual com estas linguagens e também me engajei em atividades coletivas através de associações (Associação Riograndense de Artes Plásticas Francisco Lisboa e Associação Gaúcha de Escritores) e movimentos culturais, participando do Movimento Gaúcho em Defesa da Cultura, entre outros. 

Por minha atuação na vida cultural de Porto Alegre recebi a Medalha Cidade de Porto Alegre/Prefeitura Municipal de Porto Alegre (2002), e o título de Cidadã de Porto Alegre/Câmara dos Vereadores/Prefeitura Municipal de Porto Alegre/RS (2008).

Minha vida é dedicada à arte. Tenho 54 anos de uma trajetória dentro das artes visuais e 37 anos de trabalho com a palavra.

Há 44 anos vivo em minha casa/atelier, na zona sul de Porto Alegre. Era uma rua silenciosa quando cheguei por aqui, entretanto hoje os carros passam com uma velocidade espantosa, as motos cantam pneus, os cachorros latem. É ensurdecedor. Eu que gosto de silêncio fico muito incomodada logo de manhã pois parece que as pessoas descobriram esta rua, que é secundária, como um desvio para vários caminhos. Fora isso gosto muito de morar aqui. É um bairro que ainda guarda um ar de zona de veraneio. As pessoas andam descontraídas com seus abrigos e parece que sempre estão buscando o melhor pão, o melhor bolo para saborear junto à uma geleia para o chá da tarde. Mesmo sendo uma fantasia esse clima interiorano faz do bairro um lugar muito agradável para morar e criar. Tanto é que meu ateliê está sempre em permanente ebulição. Minha produção, que mescla manualidade e tecnologia, conceito e materialidade, história e contemporaneidade, transita pelas artes visuais, pela literatura, pelas artes cênicas e pela música. 

Fui professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul por 22 anos. Especializei-me em Arquitetura habitacional e fiz mestrado em Educação pela UFRGS. 

Realizei 76 exposições individuais, sendo as mais importantes: Pinacoteca do Estado de São Paulo/SP/Brasil, Memorial da América Latina /SP/SP/Brasil, Centro Cultural Correios e Telégrafos/Rio de Janeiro/RJ/ Brasil, Museu Brasileiro da Escultura/São Paulo/SP/Brasil, Fundação Cultural do Distrito Federal/Brasília/DF, Museu da Gravura cidade de Curiti-ba/PR/Brasil, Museu de Arte do Rio Grande do Sul/Porto Alegre/RS/Brasil.

Minha dedicação para com a música resultou em muitos shows musicais na cidade de Porto Alegre e interior do Rio Grande do Sul/Brasil, em Montevideo/Uruguai, em Miami/EUA, em Toulx Sainte Croix/França e em Culiacán/México. 

Participe de 52 antologias com contos e poesia e publiquei 19 livros individuais de poesia, sendo que em 2021 reúne minha produção poética de 35 anos no livro A dimensão da palavra. 

Recebi 17 prêmios, distribuídos nas diversas áreas de atuação. 

Atualmente ocupa a presidência da Associação Gaúcha de Escritores/AGES e desenvolvo minhas produções culturais e projetos editorias através da TERRITÓRIO DAS ARTES, editora e produtora cultural.

Como você vê o município de Serafina Corrêa, vivendo em outro local?

Quando conheci Serafina Corrêa, minha cidade natal, foi uma grande emoção. O lugar onde nasci gerou uma sensação de pertencimento que desconhecia. Fui recepcionada por um grupo de pessoas que, pela relação de amizade que haviam cultivado com meus pais, me receberam de braços aberto. Guardo este momento com muito carinho.

Deixe uma mensagem para os serafinenses. 

Mesmo que o mundo nos chame a outros lugares e que a curiosidade crie em nós o desejo de conhecer ou viver em outras cidades ou países, há sempre, dentro de nossos corações um espaço afetivo especial para o lugar onde nascemos. O regional e o global são uma questão de ponto de vista, e a história de cada lugar é resultado das ações realizadas por quem ali viveu ou vive. 

Nosso mundo globalizado tenta eliminar as diferenças, as características específicas de um espaço de vida. Mas as referências específicas de nossa trajetória pessoal são a nossa base. Que tenhamos a capacidade de nunca deixar de lado nossas origens, alicerce de toda história individual e coletiva.