Prezados Fischer e Renato:
Antes de começar a responder às perguntas que nossos amigos me fazem, quero agradecer a vocês. Imaginem o quanto me fizeram feliz reunindo essas pessoas, cuja qua-lidade indiscutível oportunizaram, através de seus questio-namentos, uma revisita a vários momentos da minha traje-tória artística que me são tão caros. Cada um, com sua sa-gacidade, proporcionou um olhar interior e reascenderam lembranças, tesouros guardados com muito carinho, ao longo da vida.
Simpático este pequeno bilhete de Liana Timm.
Fotográfico. Exatamente como ela mesmo é como pessoa. Sincera, direta, integra, ética, sem dissimulações, literal-mente open mind encarando a vida de frente sem arroubos arrogantes de genialidades. In natura, espontânea, cristali-na. E esse ânimo poderá ser conferido neste desnudamento público ao qual ela se submeteu sem reservas, puro des-velamento de um só corpo múltiplo e criativo. (Renato Rosa)
Número 01 | Luiz Augusto Fischer.
Como foi a infância? As primeiras letras e as primeiras imagens, como entraram na tua vida?
Nasci em Serafina Corrêa e vim para Porto Alegre com três anos de idade.

Arte digital inspirada em uma foto quando eu tinha 3 anos de idade | 2019
Moramos na Castro Alves, e minha mãe me matriculou no jardim da infância do Grupo Escolar Argentina. Lembro de brincar na roda de areia com as coleguinhas, e essa escola ficou marcante como uma vivência muito boa da infância. Depois moramos na Santa Cecília, e comecei a estudar no Colégio Americano, onde fiquei até entrar na faculdade. A casa tinha um quintal grande, e eu gostava de fazer experimentos com vegetais. Triturava vários tipos de folhas e obtinha águas com diversos tons de verde. Nessa ocasião meu pai, nas horas vagas, fazia móveis para a nossa casa. Resolveu também fazer um patinete e me deu de presente. Fiquei muito feliz, então descia e subia a rua infinitas vezes com ele. Passei a estudar piano e balé e a ler com muita frequência.

Na casa da Santa Cecília. Minha mãe, meu pai, eu com sete anos, minha tia, minha avó, meu irmão.
Mas a rua que mais me marcou foi a Professor Duplan, pois, perto do colégio, possibilitava que eu fosse e voltasse dele sozinha com autonomia. Lá fiz grandes amizades durante a adolescência. Aprendi pintura, violão, e comecei a escrever mais assiduamente.

Meu quadro a óleo pintado na Rua José Bonifácio com 13 anos. Porto Alegre.
Me divertia indo, nos fins de semana, nas festas da Reitoria. Um período de grande efervescência.
Queria também saber de sua família: origem, história empírica (onde moravam, para onde se deslocaram; de que geração de imigrantes eram seus pais, etc.).
Pois então. A família do meu pai – Mahfuz – é de origem árabe, sírio libaneses; a da minha mãe – Gonçalves da Cunha – de origem portuguesa e francesa.
Até meus nove anos, nossa família passava as férias no Rio de Janeiro, onde moravam a mãe do meu pai e os onze ir-mãos dele. Vó Rachidée era uma figura agregadora apesar de ter um gênio forte. Essa convivência marcou não só a minha infância como a minha vida até hoje.

Meus avós por parte de pai, Rachidée e Rachid.
Íamos de carro, um pequeno Ford Prefect, desde Porto Ale-gre ao Rio, em uns bons quatro dias, pois as estradas ainda eram de terra. Com isso, conheci lugares como por exem-plo, Laguna e o Museu da Anita Garibaldi em Santa Cata-rina.
Ao subir em direção a Curitiba, ouvia-se de longe o barulho dos tropeiros, na época considerados assaltantes assusta-dores. Sorocaba foi outra cidade visitada no estado de São Paulo e também Guarujá e Santos, onde morava meu avô por parte de mãe.
Conheci o Rio de Janeiro de verdade. Além da zona sul, Tiju-ca, Santa Tereza, Jacarepaguá e outros bairros, proporcio-nando uma convivência com aquele carioca que trabalha para sobreviver e ter uma vida digna. Meus tios, um era mo-torista de taxi, outro trabalhava na Rádio Nacional, outro vendia confete e serpentina no carnaval e outro ainda fabri-cava adereços também para o carnaval.
Numa dessas vezes que estive no Rio, vi desfilando, em cima de um caminhão, Luz del Fuego e suas cobras, ima-gem que marcou meu imaginário. Também a história da ilha de nudismo em que ela vivia, faz parte das minhas lem-branças. A ilha de Paquetá e suas charretes, a floresta da Tijuca, a mesa do imperador, o Jardim Botânico, a Prainha. Tudo isso fez do Rio de Janeiro uma cidade especial na mi-nha vida a ponto de, durante um período, ter a necessidade de visitá-la todo ano, só para sentir o cheiro de suas ruas cheias de mangueiras e amendoeiras e para avistar, de longe, o Cristo Redentor.
Por parte da minha mãe, toda a família, numa certa época, morava na Cidade Baixa. Esse bairro tornou-se emblema-tico para mim. Quando passo pela Lôpo Gonçalves, Luiz Afonso, José do Patrocínio, Lima e Silva, lembro da minha vó, das minhas tias, da minha infância. Eram, e ainda são, casas de porta e janela a exemplo das casas portuguesas. Até se casar com meu pai, minha mãe morava na Demétrio Ribeiro, e ela contava uma história muito curiosa. Dizia que, quando andava pela rua, via dentro de uma das casas, atra-vés da janela, uma mesa de trabalho com uma pilha de livros abertos que quase chegava no teto. Lá morava um homem muito magro que saía todos os dias à mesma hora, de terno e chapéu, para comprar talvez pão. Na imaginação da minha mãe, ele era escritor, e os livros eram as suas leituras.
Na virada da adolescência para a juventude, digamos ali entre seus 15 e 20 anos, que Brasil era aquele? E que Porto Alegre era aquela? Como foi viver naqueles anos? O que dali tu levas para a obra, escrita ou imagética?
Estamos falando da década de 60/70, em pleno regime militar, quando a censura estava forte e a tortura era muito comum. Nessa época, cursando a faculdade de Arquitetura da UFRGS, ficava muito assustada com o desaparecimento de colegas que simplesmente não compareciam mais às aulas, e ninguém sabia por quê.
Vivíamos numa constante apreensão, mas esse ambiente era igual em quase todos os países da América Latina. Tí-nhamos ditadura no Chile, no Paraguai, na Bolívia, no Equa-dor, no Uruguai, na Argentina, e também em países de es-querda como Cuba, Peru, Bolívia e Nicarágua. Um momen-to escuro na história de todos esses povos.
Preocupada com a faculdade e com a vida em apogeu, eu participava das reuniões políticas (que aconteciam no audi-tório da Arquitetura) e de algumas passeatas, mas o medo tomava conta com certa frequência e ficava um pouco reco-lhida nessa atmosfera de AI 5.
Entretanto, no meio desse desgaste, aconteceram coisas incríveis, como o ARQUI-SAMBA na Reitoria da Universi-dade (UFRGS). Tive o privilégio de assistir gente da pesada como Baden Powell, Silvinha Telles, Edu Lobo, Tamba Trio, Aloysio de Oliveira, Chico Buarque, Nara Leão, Quarteto em Si, Bossa Jazz Trio, MPB4, Sidney Miller, Vinicius de Mora-es, Adão Pinheiro Trio, Gracinha Leporace, Sergio Porto e muitos outros. Guardo com carinho e saudade esse tempo que abriu horizontes para a minha arte, acrescentando con-vicções de liberdade, de respeito à diversidade, à conduta ética e de combate a qualquer tipo de preconceito. Hoje e sempre a arte foi a nossa resistência. Por isso tão demoni-zada.
Número 02 | Cacaio Praetzel.
O que te dá mais satisfação entre todas as tuas ativi-dades artísticas?
Ferreira Gullar já afirmou que a arte existe porque a vida não basta. Eu diria que, para mim, a arte torna possível resistir aos mistérios da vida. Tanto o que é prazeroso quanto o que é insuportável têm, através da arte, um espaço de repouso e indignação. Reflito através da arte; questiono, pergunto, me revolto ou me apaziguo produzindo com palavras, com imagens, com sons o que necessito para caminhar na vida. É um jeito que aprendi desde pequena a equilibrar as frus-trações com as satisfações. Então fica muito difícil eleger uma linguagem como a preferida, pois cada uma, à sua me-dida, estabelece estados alterados de consciência nece-ssários ao enfrentamento da realidade. O que posso com-partilhar são as diferentes maneiras com as quais me rela-ciono com as linguagens expressivas.

Auto retrato em arte digital | 2018
A palavra é uma porta que se abre ao desconhecido de mim. Inicio o trabalho sem saber onde vou chegar. E, durante o processo, o caminho vai criando suas retas e encruzilhadas, fornecendo de maneira surpreendente o resultado. Quando leio o que escrevi, aí sim entendo por onde o texto andou. Pode parecer estranho essa inconsciência, mas ela é ape-nas aparente, pois tudo está dentro de nós. É só preciso deixar acontecer, sem repressão ou amarras. Aprendi com o passar do tempo que esses guardados são nossos velhos conhecidos, basta abrirmos as passagens para que eles ultrapassem a fronteira das invisibilidades.
Em relação às artes visuais, é um pouco diferente. Parece mais racional, mas é só impressão. Planejo de certa forma o que vou fazer. Estudo a composição e suas significações; as imagens antecipadamente escolhidas indicam um cami-nho que parece definitivo. Entretanto, durante o processo, tudo se modifica, e o planejamento inicial é transmutado, novos direcionamentos acontecem, frutos de um processo espontâneo de outras demandas que nem imaginava ter.
Quando estavas no primário (até dez anos), o que sonhavas ser quando adulta?
Acho que no primário ainda não pensava sobre isso. O que lembro nitidamente é o prazer que me proporcionava dese-nhar, desenhar e desenhar. Os trabalhos manuais eram também os meus preferidos e, em casa, sempre tive extre-ma liberdade para fazer o que quisesse neste sentido. Lembro que, perto de casa, havia uma loja de artesanato e frequentemente eu pedia uns troquinhos para minha mãe e ia lá comprar algum material para fazer uma ou outra coisa. Adorava bordar vagonite e ponto cruz, pintar, recortar, colar, e meu quarto era um universo no qual eu permanecia a maior parte do dia.
O que também gostava de fazer era ler em voz alta as pro-pagandas da revista Seleções. Passava horas sentada no chão imitando os locutores de rádio.
Imaginar situações era uma prática que eu exercitava muito.
Colecionava também cartões postais de diversos lugares. Uma das minhas gavetas era dedicada a eles e os visitava diariamente.
Comecei o aprendizado da pintura aos doze anos e, por sorte, frequentei, desde os sete, uma escola que privilegiava as artes como elemento fundamental da educação. Lá con-vivi com teatro, música, artes visuais, dança e poesia.
Em casa, ouvia minha mãe tocar piano e acompanhava meu pai fazendo trabalhos de marcenaria e pequenas esculturas, nas horas vagas. Cresci sem necessidade de pensar no que seria. Meu caminho foi natural. Estudei ballet clássico, piano e violão.
Lembrando de tudo isso, sei hoje que a infância foi uma fase muito importante na minha vida, pois o que sou e o que gos-to foram gestados nesses anos em que a liberdade para praticar, sem a responsabilidade do adulto, foi uma cons-tante.
Assim deveria ser a infância de toda criança; entretanto, em nosso país, quase a maioria não usufrui destes direitos que, infelizmente, são considerados privilégios. Incluo aqui direi- to à moradia, à saúde, à educação. Oportunizar a realização de desejos simples infantis é o início de uma vida que se desenvolve com melhores perspectivas futuras.
Número 03 | Ivette Brandalise.
Vamos lá: no Brasil de hoje há espaço para a poesia?
Paradoxalmente, no Brasil de hoje, a poesia está em alta. Nunca se viu tantos saraus nas redes sociais e nunca se publicou tanta poesia. Esta horrível pandemia serviu para algumas coisas, pelo menos: a valorização da cultura como algo indispensável à vida, como contraponto às mazelas do dia a dia, como vasculha da subjetividade, como um extra-vasar de emoções, como o despertar de um pensamento crítico, como o retrato de nossa identidade brasileira e co-mo um canal de conhecimento.
Nunca se sentiu tanto a falta das manifestações artísticas presenciais, do contato interpessoal, como nessa pande-mia. Diante das evidências, a classe artística, com esforço, precisou se reinventar, e a internet teve um papel funda-mental no estabelecimento de outras formas de relações.
Todas as manifestações expressivas que não necessitam de contato físico continuaram tendo espaço em nossas vi-das. A literatura, as artes visuais, a música gravada, os ví-deos, os filmes, as séries televisivas, enfim tudo que pode-mos usufruir dentro de nossas casas continua fazendo parte dessa difícil fase.
A poesia, principalmente, está penetrando na vida de muito mais pessoas que antes. E esta prática valorizou sua língua-gem de síntese e de profunda significação.
As lives estão dando oportunidades de trocas entre artistas de todas as nacionalidades e principalmente de todas as regiões desse imenso Brasil e, através dos diferentes sota-ques e das diferentes visões de mundo, cresce em nós um orgulho de ser brasileiro.
Tu tens e usas canais diversos para te expressar. Que canal tens usado para mostrar tua indignação?
Ontem, hoje e amanhã, acho que usei, uso e usarei a arte em todas as suas manifestações para mostrar a minha in-dignação. Indignação que não é panfletária nem partidária e que se apresenta no implícito da arte. A forma como me relaciono com o mundo e com as pessoas é a minha polí-tica. Na verdade, se sou leal ou falsa, íntegra ou desonesta, individualista ou participativa, sincera ou cínica, delicada ou grosseira, tudo é uma escolha política de relacionamento e expressão. Dizer certas coisas é muito fácil, mas agir de ma-neira coerente com nossas convicções… essa é a questão.
Se falo de flores é porque não desejo a guerra.

Auto retrato em arte digital | 2020
Número 04 | Nara Lisboa.
O que representa em tua trajetória teres apresentado teu irretocável espetáculo musical e lançado o livro “Olhar Estrangeiro” na França, em 2019?
Querida Narinha! Ter estado em Toulx Sainte Croix foi um momento mágico na minha vida. Desde o momento em que começamos a gestar esse projeto, nasceu em mim uma ex-pectativa muito positiva. A tua pessoa, generosa e sensível – uma compositora que traduz, através da música, senti-mentos – já anunciava que a receptividade seria especial. Conversamos durante um ano sobre o que poderíamos fa-zer em TSC e, enquanto o tempo ia passando, fomos cri-ando uma relação de grande amizade. Falei sobre o show, um misto de música brasileira e francesa, que seria rea-lizado em teu Cabaret, informei da nossa vontade de lançar um livro sobre a França e na possibilidade de levar um grupo de amigos intelectuais junto. Tudo foi uma crescente expec-tativa que redundou em nossa ida à França para vivenciar uma experiência única.
A noite do show “Brasil é Brésil – a França no coração do Brasil”, está tatuada entre as lembranças mais caras que a vida me proporcionou. Tua hospitalidade e autenticidade me abraçaram desde o momento em que pisamos nessa França profunda.
Fico pensando em como acontecem as coisas mais impor-tantes da vida! Tudo depende das relações e da qualidade das pessoas envolvidas. Tenho certeza de que essa região da França foi tão especial porque pintaste com tuas tintas invisíveis o que pudemos ver e absorver nesses dias de completa magia. Conta comigo para novos voos criativos!

Show Brasil é Brésil, a França no coração do Brasil. Toulx Sainte Croix | 2019
Número 05 | Paulo Dalacorte.
Em sua trajetória de artista multimídia, qual é a sua opinião sobre a importância das coleções privadas para os artistas?
Quando viajo, meu maior objetivo é visitar museus de arte e espaços de amostragem. Claro que para algumas pessoas isso não faz nenhum sentido. E tudo bem. Mas é indiscutível que a maioria tem interesse em conhecer os grandes acer-vos, basta ver a fila que se acumula na frente dos museus.
Reunir uma coleção significativa e colocá-la à disposição do público, democratiza o acesso à arte, mas também é um bom negócio. Vamos ali, depois de pagar a entrada, para apreciar as produções artísticas produzidas ao longo dos tempos e podemos almoçar ou tomar um lanche no ca-fé/restaurante, como também infalivelmente saímos da visi-ta por uma loja que nos seduz com milhares de produtos que reproduzem tudo o que apreciamos dentro da institui-ção.
Frequentamos esses museus sem saber como eles surgi-ram! Não vou aqui discorrer historicamente sobre o assun-to, mas os mais importantes museus de arte do mundo nas-ceram das doações de coleções particulares.
Os gabinetes de curiosidades do Renascimento foram os antecessores do museu moderno. Eles reuniam tudo o que era raro e exótico. Misturavam antiguidades e arte e esta-vam localizados em palácios, abertos só para as amizades do colecionador. A partir do século XIX, transformaram-se nas coleções particulares e, após, nos museus de arte à disposição pública.
As atuais coleções de arte exercem também papel impor-tante no circuito da arte. O colecionador ou tem uma relação afetiva com sua coleção ou quer fazer dela um investimento rentável.
Colecionar arte é uma forma de preservar obras de artistas que não estão em museus. Expostas de tempos em tempos, dão visibilidade ao conjunto, abrindo novos conhecimentos sobre trabalhos ainda não expostos. Quando a mostra vem acompanhada de um catálogo, este pode servir de consulta para galerias e museus que estejam programando algo rela-cionado às produções constantes nas coleções.
Colecionar arte é uma forma de preservar a memória cultural de uma época e de um lugar.

Museu Van Gogh | Amsterdã | 2017
Número 06 | Norinha Prado.
Observo que tua trajetória artística extrapola o campo das artes plásticas onde exerces um trabalho maravi-lhoso, mas me parece que tua sede de expressão é imensa como atesta tuas performances cantando e in-terpretando em cena além da beleza da tua poesia. Co-mo acontece o teu processo criativo nestes outros uni-versos?
Norinha, cada linguagem expressiva tem as suas peculiari-dades, mas a necessidade de criar vem do desejo de co-municar nossa visão de mundo, e a capacidade de assim realizá-lo tem características que tanto servem para uma quanto outra modalidade artística.
Quando pequena, eu era extremamente curiosa. Muito cas-tigo levei por me levantar da classe para ver quem passava no corredor da escola! A professora reclamava para minha mãe, que me prendia no sótão da casa depois da aula, co-mo reprimenda por esse comportamento fora da curva. Imagino que deveria ser por cinco ou dez minutos, mas para mim parecia um dia inteiro. Apesar disso, eu era muito en-tusiasmada e comprometida com o que fazia. Era empenha-da com as solicitações da escola de maneira muito ativa, querendo sempre fazer mais e melhor. Diria que era apaixo-nada pelas tarefas e persistente até alcançar um bom resul-tado. Também me entediava com tarefas repetitivas e de-sinteressantes, tendo grande dificuldade de aprender as ci-ências exatas.
Envolvida, como fico frequentemente com coisas que me dão prazer, adio comer, beber e às vezes até dormir. Quan-do o processo corre solto e estou sentido fluir o trabalho, nada mais me importa.
Para criar, é necessário nos colocarmos em diferentes pon-tos de vista, observando atentamente as coisas ao nosso redor, fugindo da rotina, buscando novas experiências, o que torna não só o nosso processo, mas a nossa vida mais maleável e interessante.
Tudo isso acontece quando estou escrevendo ou produ-zindo uma obra de arte, seja de que natureza for.

Experiência Cênica Multimídia A noite tem mil demônios, realizada na Casa das Artes Villa Mimosa em Canoas/RS | 2013/2014
Como sabes o que pertence a qual área ou eles se mis-turam e se alimentam harmoniosamente?
Há uma mistura intencional, mas não uma mixagem. Gosto da complementação que as linguagens expressivas em-prestam umas às outras. O trabalho com todos os sentidos me fascina. Sempre afirmo que o teatro tem a minha admi-ração. Ali trazemos ao convívio tudo que necessitamos para transmitir uma ideia. A expressão corporal, a voz, a música, as imagens, o texto, o figurino, o cenário… enfim todos os recursos que queremos e precisamos. Ninguém pergunta os porquês dessa apropriação ativa e produtiva das língua-gens.
O que ouço frequentemente é uma interrogação um pouco cansativa. Para a resposta, uso um trecho de Água Viva de Clarice Lispector, epígrafe do meu primeiro livro de poesia AMENAS INFERÊNCIAS que diz assim:
Quando vieres a me ler perguntarás por que não me restrinjo à pintura e às minhas exposições, já que escrevo tosco e sem ordem. É que agora sinto necessidade de palavras e é novo para mim o que escrevo, porque minha verdadeira pa-lavra foi até agora intocada. A palavra é a minha quarta dimensão.

Instalação num espaço de 400m2 | 12 ambientes | intitulado As dimensões da casa | Fundação O Pão dos Pobres Santo Antônio | 2004
Número 07 | Juarez Fonseca.
Liana, achas que a arte deve ser engajada politica-mente neste momento que vivemos?
Picasso quando pintou, em 1937, a pedido do governo re-publicano espanhol, um mural que retratava o bombardeio aéreo da cidade de Guernica pelos nazistas, durante a gue-rra espanhola, não imaginou que ela iria se transformar em uma das obras mais emblemáticas de sua trajetória e da his-tória da arte universal.
Ele não costumava misturar arte com política. Guernica ti-nha mais ou menos 6 mil habitantes e, no ataque, morreram 1.660 pessoas e 890 ficaram feridas. Isso aconteceu porque o General Franco permitiu que os alemães testassem armas na região já que a cidade havia abrigado tropas suas ini-migas.
Em 2015, a visitei no Centro de Arte Reina Sofia em Madrid. Na noite anterior quase não consegui dormir de tanta ex-pectativa. O mural mede 351 x 782 cm e foi concebido atra-vés de fotos colhidas em jornais da época sobre o bombar-deio. Cada vez que perguntavam a Picasso o significado dos símbolos existentes na obra, ele respondia: não cabe a mim definir e sim ao público, e acrescentava: esse touro é um touro e esse cavalo é um cavalo.
Digo tudo isso para explicar que, apesar da obra girar em torno de algo específico, Guernica tem uma abrangência mundial e atemporal. Ela é um manifesto contra qualquer guerra e a favor da paz. Mostra todas as consequências de conflitos desse tipo, que tanto pode acontecer no nosso quintal ou no quintal do vizinho.
Se tivermos a capacidade de transformar fatos específicos em bandeiras universais e atemporais, que façamos essa arte chamada de engajada.

Campanha Eu quero este porto alegre. Criado para motivar a revitalização do Cais do Porto de Porto Alegre | 2003 | até hoje inativado.
Número 08 | Clara Pechansky.
Qual a atividade que consome mais o teu tempo?
Clarita querida! Fico pensando o que é o tempo! Tudo é muito relativo. Principalmente para quem o usa executando diversas tarefas concomitantemente. Diante dessa afirma-tiva, fica completamente impossível responder a esta inda-gação. Não tenho constância na execução de meu trabalho. Pulo de uma tarefa para outra muito seguido. Um pouco es-crevo, um pouco trabalho com artes visuais e assim vai. Tu, que acompanhas o meu trabalho há 40 anos, sabes bem disso. Logo, não consigo saber exatamente quanto tempo gasto com cada linguagem. Uma coisa é certa: adoro acor-dar cedo, por volta das 6h30 e quando, por acaso, levanto mais tarde, sinto que a manhã vai me pregar uma peça; logo acabará, e o que eu gostaria de ter feito ficará pela metade, complicando a minha tarde.
Geralmente trabalho muito. Mas a diversidade é meu mote. Leio, escrevo, pesquiso, projeto, imagino, testo, desenho, procuro, seleciono, crio, me informo e o dia passa rápido, mas sempre cheio de motivações.
Como manter o controle de qualidade exercendo tan-tas atividades ao mesmo tempo?
Apesar de trabalhar com diversas linguagens, há o que res-peitar sempre. A cada produção cabe um tempo de repouso para verificar se o que foi gestado merece ser levado a pú-blico. Isso aconteceria mesmo trabalhando com uma ou vá-rias linguagens.
Ao longo do tempo, vamos desenvolvendo o próprio sentido crítico. Ele indica os pontos fortes e fracos de nosso tra-balho. Isso não quer dizer que a aceitação do resultado seja unânime. Mas, na verdade, o que importa é o próprio olhar sobre aquilo que se faz. Após, a criação se desprende de nós e adquire independência. Então, é só no encontro com o outro que ela se completará.
Nunca fui afoita em apresentar resultados. Minhas produ-ções, sejam poéticas ou imagéticas, ficam muito tempo em descanso para serem verificadas com olhar exigente e duro.
Lembras Clarita! Em nossos inúmeros projetos conjuntos, sempre buscamos este espaço de sedimentação para, ao realiza-los, termos a certeza de suas razoáveis qualidades.

As quatro estações | Instalação que ficou um ano em exposição no Shopping Iguatemi | 2014/2015
Número 09 | Camilo de Lélis.
Você vê futuro no teatro como forma de arte pre-sencial, ou o efeito da pandemia vai permanecer como uma sequela que aos poucos vai tornar o teatro cada vez mais virtual, até talvez torná-lo uma forma híbrida e agonizante?
Bem, vejo o futuro com as limitações do meu desejo. Mas penso que, aos poucos, vamos conseguir voltar a nos rela-cionar presencialmente com o teatro, como já está aconte-cendo com a música. Descobrimos, sim, outras maneiras de levar ao público as expressões artísticas, e essas alterna-tivas já estão incorporadas ao cotidiano. E se, até agora, todas as previsões feitas ao longo da história sobre a morte da arte não vingaram, acho que ela ainda resistirá a esta pandemia e a tudo que vier.

Experiência Cênica Multimídia | Cotidianos do Eu | 2014 Centro Cultural CEEE Erico Verissimo
Número 10 | Jacob Klintowitz
Liana, você é uma personagem renascentista. Você é pintora de originalidade marcante. É teatróloga. É edi-tora com rara capacidade de produção e agrega escri-tores e intelectuais. É uma mulher de comunicação. É uma poeta de sensibilidade aguçada, capaz de unir num único poema as necessidades do psiquismo, da alma e da carne, nos ensinando sobre o ser integral. No seu processo de criação, como você consegue a concen-tração e o foco e como sabe que a obra está concluída?
Querido Jacob, meu admirável amigo, se não estivesses aqui me fazendo alguma pergunta, a entrevista não estaria completa. O Renato sabe das coisas e já sabia, há tempos, quando nos apresentou. Tenho até hoje lembranças muito caras das duas exposições nas quais foste meu curador e do livro que escreveste sobre a minha mostra O dia em que o sonho visitou o sol. A preparação, a montagem, a aber-tura, foram de uma harmonia e amizade inigualáveis. Nos-sas conversas sobre a arte e a vida criaram um vínculo indis-solúvel de amizade. Um dia repetiremos o acontecido. Aguardo ansiosa o livro que a TERRITÓRIO DAS ARTES vai publicar sobre tuas memórias pois, o sumário já é muito atraente!
Na entrevista que tive o privilégio de fazer contigo, em nos-so projeto DIGRESSÕES CLARICEANAS, que eu assino com a Cátia Castilho Simon, disseste uma coisa com a qual me identifiquei. Trabalhas numa espécie de caverna tendo em volta tudo que precisas, ou seja, teus livros. E ali perma-neces quase ad infinitum. Pois eu sou meio assim. Meu ate-lier é um útero que me acolhe e aconchega. É o meu país das maravilhas. Neste espaço, tenho quase tudo que pre-ciso: uma mesa para o computador, estantes de livros, uma mesa de desenho e cavaletes.
Concentração para mim é um estado de fácil conquista. Mal começo a trabalhar, abstraio o que está em volta sob o pe-rigo de frequentemente tomar sustos homéricos. Absorvida pelos meus interesses, não me dou conta quando alguém se aproxima, mesmo que a pessoa, sabendo desta minha característica, venha fazendo um barulho considerável.
Diante disso, é importante chamar a atenção para o valor que dou ao silêncio. Não gosto de barulho. Às vezes fica até insuportável o Split ligado, os cachorros latindo na rua e os carros passando em alta velocidade… Gosto do meu canto e do trabalho solitário. Aprecio demais a convivência com as pessoas, mas tudo tem sua hora certa. Para mim, os mo-mentos de criação são tão especiais que dedico a eles o maior respeito. Quero que eles respondam às minhas ne-cessidades, características e exigências pessoais.
Isso tudo auxilia na reflexão crítica sobre o que estou fa-zendo. Então, quando finalizo algo, esse recolhimento po-ssibilita um afastamento emocional do resultado, imprimin-do ao olhar boa dose de racionalidade. Deixo de me rela-cionar com o resultado obtido por uns dias e logo após me aproximo como se fosse um observador, nada a ver com o autor. Sempre aparece algo a complementar, subtrair, mo-dificar. Ao longo do tempo, mesmo que o livro tenha sido lançado, mesmo que as obras já tenham sido expostas, há sempre aquela situação em que se diz, poderia ter sido di-ferente ou poderia ter feito de outro jeito, ou esse deta-lhezinho…

Exposição no Espaço Cultural Citi/SP | curadoria Jacob Klintowitz | onde passavam perto de 12.00 pessoas mensalmente
Número 11 | Sepé Tiaraju Silveira Souza:
Liana, tu identificas um tema particular que perpasse tua produção?
Poderia dizer que meu tema reincidente é o tempo que pas-sa e não volta, que sempre está em movimento, transfor-mando tudo em desconhecido, que vai te levando cada dia mais perto de uma incógnita, que determina um caminho sem liberdade de escolha e que te engole pela voracidade das horas.
Acho que esse é o tema que tento decifrar. Penso que assim minimizo um pouco a incógnita que persegue a todos nós e que sei não poder alucidar.

Publicados 18 livros individuais de poesia desde 1986. Este ano de 2021 sairá A dimensão da palavra, poesia reunida.
Liana, o artista é espectador primeiro de sua obra. Após finalizar um quadro ou série, percebes um esva-ziamento onde soluções já encontradas, conhecimen-tos adquiridos, não serviriam à nova obra ou em ti tudo soma e pavimenta outro percurso criativo?
Querido amigo! É bem natural, quando finalizamos uma pro-dução artística, experimentarmos esse esvaziamento princi-palmente quando ela é presencial e quando dependemos do compartilhamento da realização: um show, um espetá-culo cênico, uma exposição. Mas, quando só depende de nós a continuidade do trabalho, esse sentimento passa rá-pido. Por exemplo, quando lanço um livro de poesia, isto não impede que eu continue, sem interrupção, a escrever poesia. Clarice Lispector tinha esse temor quando termina-va um texto. Ficava com medo de ter sido esvaziada e perdido a capacidade de escrever.
É diferente o que sinto depois de um show. Dependo de ou-tras questões. Dependo do músico que me acompanha, do lugar em que me apresento e do público que me assiste. Aí sim, quando o momento termina, dá uma profunda tristeza. Mas a gente logo se recompõe e parte para inventar qual-quer outra coisa rapidamente.

Auto retrato | desenho a lápis de cor | 2019
Número 12 | Miriam Tolpolar:
Como a escrita entrou na tua vida?
Com mais ou menos dez anos, fiz aula de datilografia. Acha-va fascinante dedilhar o teclado da máquina e, quando esta-va na aula, me imaginava uma competente secretária digi-tando coisas muito importantes para pessoas mais impor-tantes ainda. Adorava datilografar.
Lembro que meu pai comprou uma Remington, famosa na época, e eu passava muitas horas praticando.
Um dia, ele me pediu para datilografar a palestra que iria proferir como presidente da Associação Médica.
À medida que ele ditava, comecei a admirar o conteúdo do texto e me emocionei.
– Quero também escrever tão bonito quanto meu pai para que as pessoas gostem de ouvir ou ler – pensei.
Mas o que vinha do colégio não era muito encorajador: a professora de português dizia para minha mãe que eu não tinha facilidade para fazer redação. Como morava em nosso prédio uma professora de português, minha mãe acertou com ela algumas aulas particulares. Então, uma vez por semana, eu descia um andar e ia no apartamento da Profe-ssora Maria Pinto para ter aula de redação. Ela era muito diferente da professora da escola, que sublinhava todos os quês repetidos no texto com uma caneta vermelha como advertência. Isso me deixava muito constrangida, pois pare-cia um atestado de incompetência definitivo e não uma difi-culdade a ser superada.
Hoje recordo com carinho o jeito sensível com que a Pro-fessora Maria me ensinou a reconhecer na palavra mais uma das minhas formas de expressão. A partir daí, escrevia em-tendendo os meandros do pensamento e os caminhos a percorrer na produção textual. E continuei escrevendo as minhas ingênuas poesias.
Lembrei agora que, num Natal, meu pai perguntou o que eu queria ganhar de presente e não sei onde havia lido que a Editora Globo estava vendendo uma coleção de livros, co-mo um pacote. E então pedi esta coleção para ele. Quando as caixas chegaram foi uma felicidade. Havia romances, no-velas e poesia. Entrei em contato com Grahan Greene, Sumerset Maughan, Dürrematt, Erico Verissimo, Vianna Moog, Mario Quintana, Malba Tahan, Confúcio e tantos ou-tros que faziam parte da coleção. Na mesma ocasião ga-nhei de uma tia os livros que ela lera na adolescência, escri-tos por Madame Delly, uma escritora duvidosa em termos de qualidade literária, com um pseudônimo de quem não se sabia, mas uma leitura que me ajudou no desenvolvimento da imaginação.
O tempo foi passando, e eu me dedicando mais às artes vi-suais sem nunca deixar de lado a poesia.
Nessa ocasião, juntando a palavra com desenhos, fui fazen-do algumas obras. Até que um dia, com uma carga expre-ssiva de textos escritos – 1970 – pensei em submetê-los à crítica para ver se valiam alguma coisa.
Foi então que entrei em contato com o poeta Armindo Trevisan, na época meu professor de História da Arte na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pedi a ele uma horinha para mostrar os meus poemas. Lembro como se fosse hoje o que ele perguntou ao telefone:
– Liana, sabes receber críticas?
– Claro, Professor. Por que o senhor pergunta?
– Porque se não, prefiro que nem venhas, pois já perdi mui-tos amigos por isso.
Numa manhã de sábado, fui à casa dele, pronta para ouvir o que ele tivesse para dizer.
Nos sentamos frente a frente, e ele, com a minha poesia na mão, começou a fazer um trabalho de artesania incrível. Trinta versos de um poema ficaram reduzidos a cinco ou seis. E assim foi até o fim da manhã. Enquanto ele eliminava os versos, me explicava os porquês. Ao sair de lá, havia en-tendido a importância de colocar fora o supérfluo para pre-servar o essencial. Um aprendizado inesquecível que me acompanha até hoje. Naquele mesmo dia, ele escreveu um bilhete para Tania Carvalhal, crítica de literatura, encami-nhando meu trabalho e sugerindo que ela me orientasse.
Meu encontro com Tania foi outro momento definitivo para a minha poesia. Orientada por ela, frequentei, em curso 2, várias disciplinas do Instituto de Letras da UFGRS como, Crítica Literária, Laboratório de Escrita Criativa e Literatura Brasileira. Nos tornamos grande amigas.
Também me apresentou para Ligia Averbuck, na época Diretora do Instituto Estadual do Livro, da qual recebi orien-tações valiosas.
Passei dez anos lendo e estudando a literatura antes de publicar o meu primeiro livro. Em 1986, nasceu AMENAS IN-FERÊNCIAS e de lá para cá já vão 18 livros de poesia. Este ano faz 35 anos que a poesia é minha companheira diária. Preparo agora uma publicação reunindo toda essa pro-dução poética que vai sair até o fim do ano. Muito feliz por estar realizando esta empreitada. Aguardem.

Desenho a bico de pena e lápis de cor
Número 13 | Graça Nunes.
Curiosidade de artista. Liana, sendo uma artista extraordinária de alta sensi-bilidade e que se expressa em divergentes braços da Arte, eu te pergunto: O espírito sensível e sagaz que ani-ma tua poesia (adoro teus poemas) e que vaga em tuas obras no campo das Artes Plásticas (nas quais gosto de me perder), é uno, indivisível, ou serão heterônimos ca-breiros e inominados?
Até pode ser, Gracinha! Se Fernando Pessoa criou vários heterônimos para a mesma linguagem, eu posso pensar que cada uma das linguagens que trabalho é um heterônimo meu. Esse teu questionamento abre em mim uma nova perspectiva; pensar as características das personalidades de Liana Timm em cada expressão artística.
A poeta é extremamente introspectiva, diria até um bicho do mato. Quer ficar na toca para penetrar melhor no universo do sensível. É intimista e contemplativa.
A artista visual é mais aberta, gosta do gesto largo, olha para fora e se contagia com as circunstâncias diárias de maneira vigorosa.
Na música, mistura intimismo e desejo de compartilha-mento, onde busca o olhar do outro de forma extremamente objetiva. Quer participar da reação das pessoas que sinto-niza com as suas preferências, com a sua história e com a história da nossa cultura.
E, nas artes cênicas, busca a integração de todas as língua-gens, pois o teatro é para ela a expressão que desconstrói as fronteiras da arte e busca seduzir todos os nossos senti-dos simultaneamente. Uma grande arte!
O projeto FREUD e os Escritores, que ficou em cartaz du-rante nove anos, foi bem isso. Foram anos de construção iniciada por ti, minha querida, que com paciência e genero-sidade desenhaste os primeiros passos dessas performan-ces cênicas enriquecedoras. Nosso coletivo, que foi se constituindo através da Carlota Albuquerque, da Janaina Pelizzon, da Lenira Fleck, de ti e de mim, aglutinou todas as linguagens as artísticas com vigor e sensibilidade.
Agradeço as aulas que participei em curso 2 no DAD e principalmente a tua disciplina, Interpretação Teatral. Em cada aula, vivenciei momentos inesquecíveis não só inter-pretativos como vivencial. És uma professora inigualável!

Projeto FREUD E OS ESCRITORES. Nove anos em cartaz | 18 textos encenados
Número 14 | Renato Vieira
Liana, tu, como multiartista que és, quanto da criativi-dade tu julgas ser produto da formação inconsciente? Ou tem muito mais de disciplina e dedicação?
Sempre digo; para ser artista é preciso perseverança e pa-ciência. Só a capacidade inata de ser criativo, inventor, original e propositivo não basta. É preciso pré-disposição, identificação, aprimoramento constante ao longo da vida. Desde pequena tive essa tendência. Gostava de desenhar, mas podemos dizer, qual criança não gosta? Lembro que tinha uma mesinha rosa e nela desenhava, pintava, recorta-va com grande prazer. Acontece que, aos sete anos, fui sur-preendida com o reconhecimento dessa facilidade pela mi-nha primeira professora. Tia Irma me chamou para ajudá-la a desenhar corações numa folha de papel que serviria de modelo aos coleguinhas para os cartões do dia das mães. Lembro que, constrangida, desenhava para uma fila de gu-riazinhas que passava por mim para receber o coração que seria recortado para conter dizeres de afeto e felicitações. Hoje me dou conta de que autografei pela primeira vez aos sete anos.
Além disso, identificava-me com coisas que via em revistas. Meu pai recebia a revista médica italiana Rasegna Medica e nela havia reproduções de obras de arte. Ficava horas olhando aquelas imagens e me sentia completamente en-volvida naquele universo que ainda não compreendia muito bem qual era. Depois fui tomando contato com todas as lin-guagens na escola. Tive o privilégio de ser admitida na cla-sse experimental do Colégio Americano, uma experiência única cujo método pedagógico era o ensino de qualquer conteúdo através da arte. Das primeiras séries até a facul-dade, estudei na mesma escola e isso fez a diferença.
Havia um atelier de arte do lado da capela e ali fazíamos escultura, pintura e desenho. E no auditório/teatro, as artes cênicas. Também tínhamos um jogral para dizer as poesias que mais apreciávamos. E assim íamos aprendendo geo-grafia, história, biologia e todos os conteúdos de uma edu-cação formal. Acho que por essas razões não precisei pro-curar a que me dedicar. Eu já havia sido capturada, muito cedo, pela arte.
Quando entrei na Arquitetura, em paralelo continuei pintan-do, desenhando e fazendo escultura. Lá vão bons 52 anos que, ininterruptamente, pratico a arte como tarefa amorosa diária.

No atelier desenhando | 2020
Número 15 | Helena Kanaan
A palavra, o som, a cor. Algum se manifesta mais po-tente ou é para você a matéria de origem para as língua-gens que trabalha?
Meus 52 anos de dedicação às artes visuais já indicam que escolhi a imagem como a protagonista do meu processo criativo. Minha primeira exposição foi em 1969, num espa-ço que criei na rua 24 de Outubro, na galeria Champs-Élysées. Se chamava Esboço. Depois desse momento, co-leciono 74 exposições individuais em espaços nobres do Brasil.
A música, posso considerar como a primeira expressão ar-tística que tive contato. Minha babá cantava quando traba-lhava, e essa recordação é mágica. Ela tinha uma voz me-lodiosa e interpretava as canções com sentimento. Sempre me dizia que gostaria de ter sido cantora mas a vida não lhe apresentou essa oportunidade.

Minha babá e eu.
Minha mãe tocava piano e quando fui à Serafina Corrêa, conhecer minha cidade natal, ouvi de uma amiga da família uma história emocionante.
Nossa casa era de madeira e ficava rente à única rua da cidade – a Rua 11. E quando ela e seus irmãos passavam por lá e ouviam o som do piano, se encostavam em suas paredes para apreciar a beleza das execuções.

Serafina Corrêa/RS | Rua 11 | Casa onde nasci e vivi até os três anos de idade.
Acho que estes dois momentos e também o contato cons-tante com a música através do aprendizado do piano, do violão, de frequentes idas a shows, e da aquisição de discos tanto de música brasileira quanto americana, fizeram cres-cer em mim uma admiração pela música a ponto de enten-de-la como a mais sensacional linguagem artística que o ho-mem inventou.

Na aula de piano.
A fascinação era tanta que eu às vezes pensava que, se ne-cessário, trocaria tudo que faço para cantar. Mas depois, menos apaixonada vi que não precisaria abrir mão de nada e sim ter a coragem de realizar este meu sonho nascido na infância através da minha babá.
Tenho feito shows temáticos, onde conto um pouco sobre as músicas do repertório que escolho, sempre pensando num trabalho de resgate do grande manancial que é a mú-sica tanto brasileira quanto internacional.
Número 16 | Lenira Fleck
Alguns tiram da cartola coelhos
Outros de misturas incomuns
A ilusão do ser inteiro
Liana Timm
O esfacelamento da ilusão de completude é um signi-ficante que remete ao estilo Liana Timm. Refiro-me à re-lação artista/arte, criador/criatura. O efeito de um cons-tante e polivalente processo criativo sempre em aberto gera uma riqueza de expressão que mobiliza diferentes canais pulsionais: a voz, o olhar, o traço, desde o sim-ples movimento que o real do corpo é capaz de (re)pro-duzir, oxigenando sempre novas e inéditas (ins)pira-ções. O que produz tamanha inquietação criativa? A ori-gem desse enfrentamento, como o âmago do processo criativo em si, é a incompletude?
Ser inquieta e curiosa são duas das características da minha personalidade. Um certo desassossego, um desejo de com-preender, até o âmago, os mistérios da existência. Mas como isso é impossível – e não me convenço – vou sempre em busca do inalcançável para tentar de qualquer maneira chegar mais perto do que nos foge constantemente. O inte-ressante é que a aceitação da impossibilidade não esmo-rece as inúmeras tentativas de alcançar o inalcançável. Compreendo isso como uma forma de sobrevivência, um certo elã vital como afirmou Henri Bergson. Sobrevivo atra-vés dessa capacidade criativa experimentando momentos efêmeros de satisfação, através das atividades expressivas. Em cada uma delas, vou ao encontro de uma perfeição ine-xistente tanto na vida quanto principalmente na arte, pois seus resultados não são verificáveis.
Minha energia criativa está sempre em movimento. Tal co-mo o coração; quando ele parar de bater, estarei em outra dimensão.
Estou sempre às voltas com a produção de algo que nos possibilite ver o mesmo de maneiras não usuais. Isso gera em mim entusiasmo e paixão. Gosto de fazer coisas que não sejam a repetição do já visto e pensado e sim surpreen-dentes e inovadoras. Persisto nisso, buscando novos co-nhecimentos e autonomia. Gosto de associar pensamentos, de questionar incansavelmente as pseudoverdades, obser-vando a vida sem a obviedade corriqueira. Não gosto de na-da pré-fabricado como as tendências do mercado, a cor do ano, o tipo de roupa da estação, os formadores de opini-ões, enfim, toda essa manipulação que nos coloca como parte de um rebanho sem vontade própria e autonomia de pensamento.

Intervenção urbana na Avenida Guilherme Shell | pintura no leito da rua simulando o ladrilho interno da edificação. | 2014
Número 17 | Tenisa Spinelli
Amplio o espectro de uma pergunta da Clarice Lispec-tor para o Iberê Camargo, Revista Manchete, 1969: Qual é o processo criador de um pintor versus o processo criador de um escritor, de um poeta? O impulso criador será o mesmo ou é de uma natureza diversa?
O impulso criador de um poeta é o mesmo de um pintor, mas os caminhos para desenvolvê-lo são um pouco dife-rentes.
Falando na primeira pessoa, acho que minha faceta poética é a mais suscetível, e fico pensando por que as pessoas ne-cessitam de esclarecimentos para se sentirem confortáveis diante de uma ou outra expressão artística.
Louis Armstrong deu uma resposta clássica à pergunta O que é jazz? que eu gosto muito. Ele respondeu: Se você não sabe o que é jazz, então não vale a pena eu tentar ex-plicar.
O processo de criação de um poeta o levará à escrita de poemas. Algo inútil para este e para qualquer tempo, não? Não gera riqueza material, não é produto de troca, entre-tanto nos possibilita visitar outras esferas do real. O poema se dirige às emoções humanas. A potência poética toma conta do escritor desviando-o do caminho das mesmices e incitando-o a buscar, tanto na língua quanto no sistema vi-gente, outras possibilidades de enxergar e viver a vida. Du-rante a feitura poética, encontramos nosso próprio cami-nho, nossa própria maneira de condensar as significações e interrelacionar musicalidade e imagem. Transfigurar a lin-guagem.
Provocando surpresa e estupefação no leitor, posso dizer que é meio caminho para continuar fazendo poesia e para continuar fazendo arte, pois qualquer explicação joga o re-sultado da arte para o intelecto, e a poesia da arte é, mais que tudo, um jeito de chegar perto da sensibilidade humana cujo caminho é o do sentir e não o da explicação.

Exposição O doce holandês | Museu de Arte do Rio Grande do Sul | 2016
Número 18 | Renato Rosa
Como o mundo é – supostamente – majoritariamente masculino e construíste uma obra sólida, pergunto: como atravessaste este insólito deserto de terríveis disputas?
Pensando bem, acho que não sou uma pessoa competitiva no corriqueiro significado da palavra: competir ou disputar algo com alguém. Inclusive noto que evito qualquer tipo de embate desse tipo. Para mim não existe melhor nem pior e sim diferenças. As comparações de resultados artísticos já nascem fracassadas. O que é único permanece com seu valor, independente do que esteja ao lado.
O que me move são as minhas preferências. Sim, gosto mais disso que daquilo, mas o valor de uma obra não pode ser medido pelo gosto circunstancial de alguém. Mudamos a cada momento, e o olhar acompanha essas mudanças. Leio hoje um poema, recebendo-o de uma maneira; amanhã ele poderá se apresentar diferente. A mesma coisa com as obras de arte.
Quando reconheço um ambiente de disputa, prefiro me afastar e buscar outra via, pois me parece destrutivo ficar lutando por algo que talvez nem valha a pena.
Acredito no tempo que vai fazendo a triagem e colocando em seus devidos lugares aquilo que em algum momento foi desprezado e desvalorizado.
Neste tempo de consumo exacerbado e de falta de paci-ência, tudo que é fácil e privilegia o mercado é aceito como um valor. Então é preciso escolher um caminho: ou entrar nessa vibe ou continuar com coerência uma trajetória pes-soal que deseja outro tipo de resultado.
Sinto que meu embate é comigo mesma. Uma luta interna de superação das minhas questões pessoais.
Um aprimoramento dos objetivos traçados, independente das tendências do mercado. Quantidade é o comum nestes dias, mas a qualidade ainda é a minha diretriz.
E para finalizar, transcrevo um trecho do que escrevi na orelha do meu livro Extravios Incandescentes:
Muito do que escrevo e desenho sinto mais do que com-preendo e, nisso, me encontro afetada por um desejo de vida. Subverto a ordem dos dias desde o momento em que ouvi alguém questionar a lógica do inquestionável. Sou e serei como sangue, circulando e alimentando a imaginação enquanto a vida, esse milagre incompreensível, achar que em mim vale a pena pulsar.
Liana Timm

Desenho a bico de pena e lápis de cor | 2020
