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Uma história de vida e paixão pelos livros

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2023 Entrevista à Revista PARANHANA por Doralino Souza

Os livros sempre fizeram parte da minha vida. Quando pequena ganhei, de fim de ano, uma coleção da Editora Globo presenteada por meu pai. Nela havia obras de Somerset Maugham, Graham Greene, Fernando Namora, Vianna Moog, Erico Verissimo, Mario Quintana, Agatha Christie, Dürrenmatt, entre outros que não lembro mais. Era uma iniciativa inovadora no mercado editorial brasileiro e só depois de muito tempo vim a entender a importância que ela teve na minha vida de leitora. Tinha de tudo, desde aventura, mistério, obras clássicas, poesia, enfim, todo tipo de literatura.

Meu pai também era sócio do Círculo do Livro e todo mês aparecia a representante em nossa porta entregando a publicação que havíamos escolhido.

No colégio em que estudei, dos 7 aos 18 anos, tinha um biblioteca que eu comparava ao paraíso. Queria sempre estar lá pois sua atmosfera ultrapassava a realidade e me levava a outros mundos.

 Na minha casa, além dos livros, circulavam muitas revistas. As que mais me recordo são a Seleções do Reader’s Digest e uma revista italiana intitulada Rassegna médica e culturale.  Muitos contos li na Seleções e na Rassegna tomei contato com a arte de maneira vigorosa, principalmente com a gravura em metal e a pintura. Foi através dessas publicações que entendi e valorizei a importância da reprodução em detrimento do original. E isso foi vivido na prática, quando já em condições de visitar alguns museus importantes no exterior, ao estar diante de uma obra-prima, já me sentia familiarizada com ela.

Também uma experiência importante foi a convivência com a tipografia do meu sogro. Ele tinha uma gráfica, ainda de tipos móveis e com máquinas à lá Gutenberg. A montagem dos textos, os clichês de imagens, aquele cheiro de tinta e depois a impressão me conquistaram de tal maneira que era muito prazeroso ver aquele processo artesanal resultar nos impressos ali produzidos.

UMA PROFISSÃO ALARGADA

Cheguei à faculdade com uma série de informações e preferências que me fizeram conhecer uma gama de possibilidades nas quais eu poderia me articular dentro e fora da Arquitetura. Na época o curso era muito mais aberto à criatividade. Tanto é que nele havia várias disciplinas voltadas à estética e à arte, o que tornava o profissional arquiteto bem mais preparado para o planejamento dos espaços habitados.

Quando me formei, comecei a dar aula no Departamento de Expressão Gráfica da Facul-dade de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS. Além da linguagem gráfica propriamente dita, introduzi conceitos de comunicação visual e design gráfico numa das disciplinas que ministrava. O DESENHO EXPRESSIVO III, na ocasião ficou conhecido em toda a Uni-versidade porque seus conteúdos teóricos e principalmente práticos, complementavam os conhecimentos necessários aos estudantes de jornalismo e comunicação. 

O objetivo era, ao introduzir esses conteúdos  – programação visual, identidade visual, editoração de publicações, ambientação de exposições e outros afins – abranger mais que o simples exercício do desenho de observação, conteúdo este ministrado na disciplina desde quando a Faculdade foi criada. 

Esta iniciativa abriu novos horizontes aos estudantes do curso e fora dele. Foi nesta época também, que criei o Gabinete Experimental de Comunicação Visual e realizei uma atividade de extensão intitulada Meios Reprodutores da Imagem. Esse curso marcou época, como uma virada tecnológica aplicada à linguagem visual que praticávamos então. Consegui, emprestada, uma máquina reprodutora que ficou um ano à disposição dos estudantes para praticarem seus trabalhos experimentais.

MÚLTIPLOS INTERESSES

Minhas atividades como artista visual e poeta corriam em paralelo com as da arquitetura e comecei a ser chamada para ilustrar e fazer capas de livros e revistas e também participar com meus textos em coletâneas institucionais e independentes.

Um dos trabalhos emblemáticos que realizei foi para a Samrig, em 1986, intitulado Quin-tana dos 8 aos 80, junto com a crítica de literatura Tania Carvalhal, a fotógrafa Liane Neves e a designer Marilena Gonçalves. 

Lá vão 37 anos dessa façanha que inspirou um dos caminhos aos quais me dedico até hoje.

A partir de então comecei a pensar na possibilidade de criar publicações culturais que iniciassem pelo assessoramento conceitual de seu conteúdo e evoluísse para o plane-jamento operacional e gráfico chegando à materialização da ideia sob a forma de livro.

NASCE UMA EDITORA

E foi criada a TIMM & TIMM editora que trabalharia voltada para o segmento de livros culturais.

Eu e meu marido Edgar Timm, realizamos inúmeras publicações que marcaram época como Crônica de um rio, Faróis da Solidão, Culturas em Movimentos, Amor febril e também produzimos alguns discos e designs de produtos. Em 1994 meu marido faleceu e a TIMM & TIMM se transformou em TERRITÓRIO DAS ARTES a partir de 1997. 

Venho trabalhando com literatura e ciências humanas, de maneira muito tranquila, sem afobações e colocando na rua publicações criadas pela editora, bem como outras que a TDA publica por acreditar em sua qualidade. 

Não penso em quantidade, trabalho por prazer e com o desejo de contribuir para um aprimoramento da leitura e da qualidade editorial. Trabalho com um design caprichoso e original, capaz de valorizar o texto ali exposto. 

A estética de um livro é de extrema importância. Pode aproximar ou afastar o leitor e às vezes o próprio escritor não se dá conta disso, prejudicando sua escrita. Então, a partir dessa constatação, a cada publicação vamos tentando introduzir pequenas novidades, sem onerar a produção, para criar curiosidade e construir uma ponte atrativa no circuito comunicativo literário.

ALGUMAS REALIZAÇÕES

Temos várias frentes de trabalho: livros de demanda externa, livros de autores escolhidos pela editora, livros próprios e coleções que ao longo do tempo se enriquecem com mais publicações.

Uma delas é a coleção Minibuks que já tem treze anos. São textos curtos publicados num tamanho sintético como uma introdução a assuntos relevantes. O formato, de pequena dimensão, foi escolhido para facilitar o transporte da publicação e servir de companhia em ocasiões especiais. São vários assuntos que vão desde literatura, decoração, dieta, histórias infantis e texto dramático.

Outra é a coleção VIAGENS intitulada OLHAR ESTRANGEIRO. Iniciamos com Nova York, depois França e México e agora vamos fazer uma edição sobre o Uruguai. A ideia é trabalhar a visão de mundo do escritor estrangeiro sobre a cultura de lugares escolhidos.

Mais uma coleção muito apreciada é a ARCA, que completa neste 2023, 15 anos de existência. São coletâneas com autoras e autores de relevância na cena literária de nosso estado e a cada ano elegemos uma temática que é desenvolvida com toda liberdade pelos escritores e escritoras que se agregam ao projeto.

Também o texto de dramaturgia é contemplado na TDA com a coleção FREUD e os ESCRITORES. Estes textos fazem parte do projeto, de mesmo nome, que ficou em cartaz durante 9 anos ininterruptamente em Porto Alegre. Realizávamos performances encenadas sobre as ressonâncias das ideias de Freud e seus escritores e escritoras favoritas ou escritores e escritoras que se identificavam com a psicanálise.  Estes textos, em número de dezoito, foram escritos por Dione Detanico, Lenira Fleck e Liana Timm. E as encenações, a maioria delas realizadas no Theatro São Pedro, sempre com plateia lotada, foram dirigidas por Graça Nunes e Carlota Albuquerque e interpretadas também pela atriz Janaina Pelizzon.

Livros sobre arte também são o foco da  editora. E diversas publicações foram realizadas sobre a vida e a obra de artistas do Rio Grande do Sul. Em cada uma trabalhou-se a concepção como uma vitrine da trajetória artística, valorizando as fases do desenvolvimento criativo das artistas, com fartas imagens e informações. Aqui, alguns exemplos destas publicações.

Também, ao longo destes anos, produzimos publicações para escritores e escritoras dentro da literatura, psicanálise e de outras áreas do conhecimento.

Outra atividade muito prazerosa é criação de capas para livros independentes ou para instituições, pois a capa é o cartão de visita de uma publicação. Mas é claro só uma boa capa não é o suficiente para qualificar um livro. Aqui exemplifico esta atividade com as capas da coleção 2000 criadas para o Instituto Estadual do Livro.

NOVIDADES NA EDITORA

Estamos num momento em que a editora se aprimora para, cada vez mais, agregar qualidade às suas publicações.

Hoje contamos com um conselho editorial, além de mim, composto por Cátia Castilho Simon, Dione Detanico, Janaina Pelizzon e Márcia Ivana de Lima e Silva, para discutir sobre os rumos da editora. E já pensamos numa nova coleção, para 2024, intitulada Homenagens, para resgatar escritores e escritoras que fazem a história de nossa literatura e estão sem visibilidade atualmente.

Também começaremos outra coleção que passará para o papel: DIGRESSÕES CLARICEANAS, criada e produzida juntamente com a escritora Cátia Castilho Simon, composta por entrevistas com grandes nomes da cultura brasileira. Já realizamos 16 entrevistas tendo como pano de fundo o jeito de entrevistar da nossa Clarice Lispector. Estas entrevistas estão à disposição no Youtube e face da TERRITÓRIO DAS ARTES. Nomes como Jane Tutikian, Jacob Klintowitz, Cida Moreira, Lilian Rocha, Marta Cortesão, Micheliny Verunschk, Lau Siqueira, Maria Valéria Rezende, Patrícia Cacau, Claudio Daniel, Cíntia Moscovich, Carola Saavedra, Taiasmin Ohnmacht, Tabajara Ruas, Márcia Kambeba e Lélia Almeida, estarão na coleção de entrevistas.

Estamos também organizando a ampliação da coleção Minibuks com 10 publicações variadas que logo em seguida serão divulgadas.

Teremos também a publicação de todos os textos de dramaturgia do projeto FREUD e os escritores, pois um trabalho de 9 anos não pode ser perdido, uma vez que temos diálogos ricos entre Freud e Goethe, Schiller, Hoffman, Simone de Beauvoir, Agatha Christie, Thomas Mann, Jung, Anaís Nin, Marie Bonaparte, Nitzsche, Schnitzler, Anna Freud, Stefan Zweig, Hilda Doolittle, Lou Andrea-Salomé, Hannah Arendt, Virginia Woof e Schopenhauer,

A coleção ARCA terá mais um volume em 2024, sempre a partir de 2022, homenageando uma figura importante da nossa cultura e tendo a organização compartilhada com a Cátia Castilho Simon.

E logicamente estarei lançando mais um livro de poemas completando 20 publicações individuais, sendo que o livro A DIMENSÃO DA PALAVRA reúne meus 35 anos de poesia.

E para finalizar estaremos abrindo mais uma coleção intitulado Picurruxos, voltada para o público infantil com o título BRIGITE cujo texto é assinado por Cátia Castilho Simon e as ilustrações de minha autoria.

ESPALHANDO LIVROS POR AÍ

A TERRITÓRIO DAS ARTES tem doado muitas de suas publicações para bibliotecas comunitárias e movimentos sociais, tentando aproximar o livro de possíveis leitores que não tem acesso à literatura.

Como a TDA é uma pequena editora e não trabalha com best sellers, as livrarias acolhem burocraticamente as suas publicações e é lógico, elas nunca ficam em exposição nas vitrines nem em lugares mais visíveis, o que se reflete nas vendas.

Também pensamos no comércio de livros como algo que deve beneficiar, em primeiro lugar, o autor. Por essa razão a TDA vende direto para seu público e os autores que editam com ela também. Estamos sempre querendo inventar um melhor caminho para resolver esse grande problema de distribuição e venda que apresenta o mercado livreiro. Algo já comprovado também na venda de publicações, é que as mesmas são consumidas, primeiro, pelo círculo de amizade do escritor ou escritora e assim, conforme este potencial é pensada a tiragem da edição. Um modo mais realista de investir no livro.

Atualmente, com as novas tecnologias, os autores estão se autopublicando. Parece ser um bom caminho pois os custos diminuem em relação ao processo de produção. Porém tenho notado que a qualidade das publicações diminuiu. Como o escritor não conhece todos os passos do processo de criação e design, produção editorial não chega, com raras exceções.

Mesmo diante de tantos percalços, aumento de preço do papel e insumos, perigos de taxação de impostos para a produção de publicações, vamos indo e inventando maneiras de continuar dando visibilidade à riqueza da literatura de nosso Estado e do Brasil.